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The New York Times

“O que ela mostra é tanto um thriller quanto um épico, uma saga de grandes forças históricas e mudanças conjunturais de poder e ideologia”

“The Edge of Democracy” encara o Brasil com indignação e desgosto

Petra Costa’s documentary chronicles the impeachment of one president, the imprisonment of another and the triumph of authoritarian politics.

By A.O. Scott 

Texto original aqui.

“Durante seus oito anos como presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva – um ex-operário metalúrgico e sindicalista, conhecido como Lula – era frequentemente chamado de um dos políticos mais populares do mundo. De acordo com uma pesquisa, seu índice de aprovação entre os brasileiros quando deixou o cargo, em 2011, foi de 87%. Foi sucedido por sua aliada no Partido dos Trabalhadores (PT), Dilma Rousseff, economista presa e torturada pela ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985.

The Edge of Democracy, novo e esclarecedor documentário de Petra Costa, conta essa história de triunfo político da esquerda a partir da perspectiva de suas consequências. Rousseff sofreu impeachment e Lula está cumprindo uma sentença de prisão. Ambos foram implicados na Lava Jato, complicada e divisora investigação de corrupção. O atual presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, é um admirador da antiga ditadura e faz parte de uma tendência global em direção ao populismo autoritário e antiliberal que floresce atualmente nas Filipinas, na Hungria e em muitos outros países.

O que aconteceu? A questão assombra esse filme e provavelmente assombrará muitos de seus espectadores, onde quer que estejam assistindo. Embora seja uma investigadora escrupulosa, obstinada por fatos ocultos e intérprete ponderada dos fatos, Petra não produziu um trabalho de jornalismo objetivo ou de estudos acadêmicos, mas uma avaliação pessoal do passado e do presente de sua nação. The Edge of Democracy é narrado em primeira pessoa, pela própria cineasta (em inglês na versão em análise, que está sendo transmitida pela Netflix), em uma voz que é, por sua vez, incrédula, indignada e auto-questionadora. É uma crônica da traição cívica e do abuso de poder, e também de desgosto.

Petra não esconde suas afinidades políticas, e sua franqueza aumenta, em vez de prejudicar, a credibilidade de seu relatório. Seus pais eram ativistas de esquerda, perseguidos e levados à clandestinidade nos anos 1960 e 1970. Sua mãe e Rousseff passaram um tempo na mesma prisão, e o acesso de Petra aos altos escalões do Partido dos Trabalhadores é evidente. Mas a história de sua família também a conecta com interesses de negócios – a indústria da construção, em particular – que, ela argumenta, distorceram a política brasileira e minaram seu potencial democrático e igualitário.

Lula é retratado como a personificação falha, mas mesmo assim autêntica, desse potencial, um líder cujo carisma é consistente quando está se dirigindo a trabalhadores em greve ou presidindo assuntos de Estado. Mas se o retrato que Petra faz dele e de Dilma Rousseff é de admiração, não é nada acrítico. O que energiza sua história é a luta para alcançar uma medida de clareza analítica em meio à catástrofe. Em vez de obscurecer sua visão, suas simpatias a aguçam.

O que ela vê – o que ela mostra – é tanto um thriller quanto um épico, um conto de esquemas conspiratórios e egoístas que é, ao mesmo tempo, uma saga de grandes forças históricas e mudanças conjunturais de poder e ideologia. As acusações contra Rousseff e Lula são explicadas como resultado de traições que parecem quase shakespearianas, um golpe de Estado judicial e legislativo realizado pela transformação de leis e instituições – que deveriam ser neutras – em armas.

Os vilões de Petra são ricos industriais e membros dos partidos centristas e de centro-direita do Brasil. Mas seus heróis haviam colaborado com esses mesmos partidos, e o sucesso de Lula em meados e final dos anos 2000 – um período de crescimento econômico e de uma reforma social ambiciosa – foi em algum grau possibilitado por sua acomodação de interesses comerciais e cooperação entre partidos. Uma das implicações de The Edge of Democracy é que, como Lula e o Partido dos Trabalhadores perderam contato com o movimento de massas que os levou ao poder e dominou as alavancas do sistema político, eles se tornaram vulneráveis ​​à ira popular à direita. Corrupção e negociações de bastidores eram normas antigas de governança brasileira que o partido não fez muito para desafiar. A frustração pública com o governo como um todo poderia, assim, ser mobilizada contra Lula e Dilma Rousseff, cujas efígies eram exibidas, vestidas de uniformes de prisioneiros, em comícios de rua.

Imagens desses comícios e de demonstrações contra o impeachment de Rousseff e a prisão de Lula sugerem uma sociedade ferozmente polarizada, na qual os termos fundamentais de identidade nacional, história coletiva e verdade em si estão em disputa. ‘Ordem e progresso’, o slogan idealista da bandeira brasileira, é tão ridicularizado por esse espetáculo de caos e retrocesso que Petra se vê imaginando se as palavras sempre foram uma piada.

Os fatos e argumentos apresentados pela cineasta devem ser estudados por qualquer pessoa interessada no destino da democracia, no Brasil ou em qualquer outro lugar. O sentimento que seu filme transmite será familiar para qualquer um que tenha experimentado a política dos últimos anos como uma série de choques e reversões, que questionam suposições básicas sobre a realidade. The Edge of Democracy é uma declaração de fé no princípio da realidade, na ideia de que é importante e possível entender o que aconteceu. Mesmo se – ou precisamente porque – nenhum de nós sabe o que acontecerá a seguir.”

A.O. Scott é o co-diretor crítico de cinema. Entrou para o The Times em 2000 e escreveu para a Book Review e The New York Times Magazine. É também é o autor de “Better Living Through Criticism”.

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