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Variety

“O recente e perigoso retrocesso à extrema-direita em documentário angustiante e artístico”

Por Guy Lodge


Como afinal chegamos até aqui? Esta é uma pergunta que políticos progressistas têm feito a si mesmos ao redor do mundo, cambaleando entre a guinada à direita que garantiu a tumultuosa chegada de Trump à presidência, o incessante e conflituoso Brexit e, apesar de menos presente nas manchetes internacionais, a submissão do Brasil ao ultraconservadorismo opressor do recém-eleito presidente Jair Bolsonaro. A pergunta costuma ser retórica, feita com as mãos levantadas e em tom de desespero. A cineasta brasileira Petra Costa, no entanto, procura de fato respondê-la. Democracia em Vertigem, um vasto e petrificante documentário sobre a vitória da extrema direita em seu país, mapeia meticulosamente a cadeia de eventos que deixou o governo anterior de joelhos.

Essa urgente e exaltada narrativa esclarece a triste convulsão social no Brasil – embora o público de esquerda nos Estados Unidos, Reino Unido etc. possa encontrar estilhaços de suas próprias crises nacionais nessa reflexão fragmentada. Sabe-se que Democracia em Vertigem – que teve uma notável première em Sundance e, desde então, tem marcado presença em festivais – será distribuído mundialmente pela Netflix, o que deve garantir o alcance mais internacional e imediato possível para um filme que funciona como um alerta contra a complacência na política. Não é somente uma bandeira, apesar disso. Aqueles familiarizados com o trabalho anterior de Petra Costa, incluindo os intimistas e pouco ortodoxos Elena e Olmo e A Gaivota, não se surpreenderão ao encontrar uma dimensão poética nesse retrato da cena política atual.

A crise da democracia, em outras palavras, é um assunto com o qual a cineasta lida de forma pessoal – como expresso na narração feita por ela mesma, e que às vezes assume a forma de uma passional e melancólica elegia: “A democracia no Brasil e eu temos a mesma idade”, ela diz, “pensava que, aos 30, estaríamos ambas pisando em terra firme”. Filha de dois militantes radicais, presos por se oporem à ditadura militar brasileira nos anos 1960 e 1970, ela admite que Bolsonaro pode ser a prova de que a luta deles foi em vão: “Temo que a nossa democracia não tenha sido mais do que um breve sonho”. Registros históricos da família de Petra se entrelaçam a gravações feitas a curtíssima distância de dois líderes da esquerda brasileira em declínio: os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (popularmente chamado de Lula), hoje preso sob acusações aparentemente falsas de corrupção, e Dilma Rousseff, primeira mulher presidente do Brasil, vítima de um impeachment em 2016 por razões igualmente discutíveis.

Para os espectadores que não têm acompanhado o vai-vem da política brasileira, Democracia em Vertigem oferece uma inevitavelmente densa mas esclarecedora retrospectiva, começando pelo arco altamente cinematográfico de Lula. Líder improvável da classe operária que concorreu por três vezes à presidência antes de finalmente levar o Partido dos Trabalhadores ao poder, em 2003, sua ascensão não aconteceu sem conciliação, mas com concessões significativas ao mercado, o que não afetou sua aprovação, ainda impressionantemente alta quando passou o bastão para Dilma Rousseff, em 2010. Uma ex-guerrilheira marxista que se converteu ao capitalismo pragmático quando entrou na política – “Se Jesus viesse ao Brasil, teria que se aliar inclusive a Judas”, dizia Lula –, Dilma pareceu uma boa opção para ampliar o legado do socialismo temperado de Lula. Depois de um primeiro mandato estável, entretanto, sua popularidade despencou em 2015 em meio a alegações de cumplicidade no escândalo da Petrobras, o que deu início a protestos massivos e a pedidos para que deixasse o cargo.

Se Petra derrapa um pouco nos detalhes dessas obscuras negociações, é porque as considera quase como um gatilho narrativo nesse vagaroso thriller, uma questão de menor importância inflamada pela direita para fomentar a inquietação pública e a nostalgia em relação ao período de ditadura militar. O filme revela como os ditos políticos populistas germinam e se propagam em tempos de vulnerabilidade econômica, e evoca vividamente — graças a uma câmera agitada e a um excelente design de som — o poder frenético e acachapante de uma multidão ávida por mudanças, reunida tanto para louvar quanto para enterrar a esquerda (Petra Costa compara a cobertura midiática dos  protestos à transmissão esportiva). Bolsonaro entra num estágio já avançado do filme, com suas promessas macabras de liberação das armas de fogo e um radical moralismo cristão. No momento em que ele aparece, Petra já pintou um retrato tão distópico da sociedade brasileira que sua ascensão soa como a marcha constante e sonora da Morte, tensa em sua terrível inevitabilidade.

Democracia em Vertigem não reivindica objetividade. Trata-se de um cinema documental em que fatos se embaraçam com sentimentos, enquanto passagens de solene e imponente humor fazem a diferença. As sequências mais fascinantes do filme, auxiliadas por filmagens estranhamente oniscientes de drones, lentamente exibem os impulsos e as curvas modernistas do icônico palácio presidencial projetado por Oscar Niemeyer em Brasília – mostrado vazio no período de transição entre ocupantes radicalmente opostos. É uma visão assombrosa: uma obra-prima arquitetônica criada com um futuro radical em mente, agora hospedando o homem determinado a devolver o Brasil ao seu passado mais sombrio e conservador. A voz de Petra Costa, forte em outros momentos, muitas vezes silencia nesses desvios oníricos. O simbolismo irônico é claro o suficiente para ver, embora também se possa encarar esse excelente e desconfortável filme ficando sem palavras. Foi assim, afinal, que chegamos até aqui, Petra mostra a seu público. Como saímos daqui é outra história.

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