Voltar
Women&Hollywood

“Mulheres diretoras em Sundance 2019: conheça Petra Costa”

Por Laura Berger

Petra Costa é uma cineasta brasileira cujo trabalho engloba tanto a ficção como a não-ficção. Seu primeiro filme, “Elena”, estreou no Festival Internacional de Cinema de Amsterdã. Seu segundo filme, “Olmo e a gaivota”, estreou em Locarno. “Democracia em vertigem” estreou em janeiro no Festival Sundance de Cinema.

W & H: Descreva o filme para nós em suas próprias palavras.
PC: “The Edge of Democracy” é uma jornada pessoal através da política enquanto eu via meu país, o Brasil, cair em desordem, assim como muitas outras democracias ao redor do mundo. A história chegou a mim de um jeito que lembra uma ópera. Eu testemunhei em primeira mão o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente do Brasil; a ascensão de seu vice-presidente conservador Michel Temer; o aprisionamento de Lula, um dos líderes mais populares da América Latina; e os eventos dramáticos da eleição mais recente do país.

Esses acontecimentos dramáticos vieram justamente quando o Brasil finalmente se afirmou como uma potência democrática no cenário mundial. Meus pais lutaram contra a ditadura e dedicaram grande parte de suas vidas ao estabelecimento da democracia brasileira; tendo crescido com seu modelo, achei que tive sorte de finalmente colher os frutos de sua luta.

Mas de repente tudo começou a desmoronar. As tensões de classe que vinham crescendo por anos explodiram, inclusive em minha própria família. De fato, ao fazer o filme, percebi como minha família estava mais profundamente entrelaçada com a crise política do país do que eu jamais imaginara. O filme é um olhar sobre o poder, o desejo de fazer mudanças e a desilusão de ver as estruturas políticas se movendo para garantir que tudo permaneça o mesmo.

W & H: O que te atraiu nessa história?
PC: Há algo que eu digo no filme sobre ter a mesma idade da democracia brasileira e como eu pensei que em nossos 30 anos nós duas estaríamos em terra firme. Por volta de 2013, comecei a perceber que esse terreno não era tão sólido quanto eu imaginava. Mas só ficou claro para mim no início de 2016, quando testemunhei um protesto em massa pedindo o impeachment de Dilma.


O que vi foi tão intenso que decidi filmar e, desde então, entrei num buraco de coelho que durou 1.001 noites. Este filme nasce de um susto, uma sensação profunda de vertigem e um desejo de entender o que faz um país virar do avesso. Eu tentei trazer isso para a tela o mais cinematograficamente possível, e imitar o thriller político que se desenrolou na minha frente.

W & H: O que você quer que as pessoas pensem depois de assistirem seu filme?
PC: O que eu espero é que o público deixe o filme em condições de decidir sobre o que está acontecendo no Brasil. Eu tenho meu próprio ponto de vista, mas mesmo isso mudou e se desenvolveu muito na produção do filme. Espero que isso ajude as pessoas a entenderem um pouco da extrema complexidade e confusão em torno dessa história.


Para mim, “Democracia em Vertigem” toca um tabu: falar a verdade sobre o poder. Chegando à maturidade no Brasil, você poderia falar de política, mas apenas se ela permanecesse na superfície. Havia uma sensação de “Não critique a elite do país, especialmente se você faz parte dela” e “Não critique a esquerda do país; se você denunciar, você dará força ao outro lado. ”
Agora que tudo se abriu, e tudo o que estava podre veio à tona, a imposição do silêncio e do esquecimento foi suspensa. Podemos finalmente dar uma boa olhada no espelho e ver o que está em jogo. Acredito que é nosso dever impedir a destruição de nossas instituições democráticas antes que seja tarde demais.

W & H: Qual foi o maior desafio em fazer o filme?
PC: Este filme me leva a um novo lugar, tanto artisticamente quanto em termos de assunto. Meus filmes anteriores foram retratos íntimos de indivíduos e “The Edge of Democracy” ainda é isso, mas com indivíduos no centro de uma importante reportagem global e política. Tem sido fascinante, mas desafiador em todas as etapas. Definitivamente, o desafio mais difícil que já enfrentei.

Para tentar extrair a informação, tive que tentar entender cada camada da história – e cada camada era extremamente complexa – desde a investigação da Lava Jato até o cenário político do Congresso e do Senado, a economia, a história, a política. Era um buraco de coelho sem fim.
A parte mais difícil foi lidar com o nível pessoal de dor que essa história trouxe para mim e para todos os meus próximos.

W & H: Como você conseguiu seu filme financiado? Compartilhe alguns insights sobre como você fez o filme.
PC: Nós sabíamos que manter esse documentário ferozmente independente era crucial, então começamos a levantar fundos fora do Brasil. Temos tido a sorte de ser apoiados pela Tribeca, Sundance e Bertha Doc Society, entre outros, e depois começamos a trabalhar com a equipe da Netflix Originals, que acreditamos ser o distribuidor ideal para este filme em uma plataforma global.

W & H: O que te inspirou a se tornar um cineasta?
PC: PC: Eu tive dificuldade em escolher uma carreira, pois fui fortemente pressionado em diferentes áreas. Eu amava teatro, depois me apaixonei pela antropologia, que me deu as ferramentas para entender muito sobre o meu país, e eu sempre fui intrigada com a psicologia. Acho que só poderia me contentar com cinema, porque era uma área em que todos os meus interesses poderiam convergir.

W & H: Qual é o melhor e pior conselho que você recebeu?
PC: O melhor conselho foi uma citação que li de Nicolas Cage, onde ele disse: “Não há receita para o sucesso, mas há uma receita para o fracasso – tentar agradar os outros”. O pior conselho que ouvi foi de um diretor de teatro masculino. Eu dizia a ele que estava com dificuldade em interpretar minha personagem, uma adolescente suicida, porque minha irmã havia tirado a própria vida. Ele disse: “Você deveria ver um psicólogo, já que isso não é assunto para teatro”. Eu discordo. Acho que essa é a questão mais importante quando você está lidando com a vida das pessoas de uma maneira artística – você deve ter empatia sobre como isso reverbera nas formas mais íntimas de suas vidas.

W & H: Que conselho você tem para outras diretoras?
PC: Seja teimoso. Ou como Che Guevara diz: “Seja forte, sem nunca perder a ternura”.

W & H: Nomeie seu filme favorito dirigido por mulheres e por quê.
PC: Eu tenho que dizer dois: “Beau Travail”, de Claire Denis, e “The Beaches of Agnès”, de Agnès Varda. “Beau Travail” foi o primeiro filme que vi que olhou para os corpos dos homens como uma mulher olha para os corpos dos homens. E também olhou para os corpos das mulheres como uma mulher olha o corpo de uma mulher – e o faz de uma maneira muito complexa. O filme lida com conflitos de raça e poder, mas ao mesmo tempo é sensível e poético. “The Beaches of Agnès” me ensinou a liberdade de filmar. Varda relata sua vida através de seus próprios filmes e, ao fazê-lo, dá a si mesma a liberdade de fazer tudo – inclusive se colocando dentro do estômago de uma baleia.

W & H: Já se passou pouco mais de um ano desde o início do acerto de contas em Hollywood e na indústria cinematográfica mundial. Quais diferenças você notou desde o lançamento dos movimentos #MeToo e#TimesUp?
PC: Eu estava esperando há muito tempo por tudo isso acontecer. Uma das razões pelas quais tenho trabalhado em dirigir, em vez de atuar, foi o nível de opressão que senti como atriz. E eu sei muito intimamente as dores de ser vítima de abuso. Minha irmã foi vítima de abuso quando tinha 14 anos nas mãos de seu diretor de teatro e isso definitivamente influenciou seu suicídio. Eu acho fundamental que as mulheres continuem expressando a opressão que enfrentam – o que, claro, é muito mais difícil para as mulheres que não têm poder. Eu acho que o Brasil ainda está atrasado neste movimento e espero que chegue mais forte lá em breve.

Visitar publicação original